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Tudo que você precisa saber sobre Agrofloresta Têxtil

A Mudha (@mudhabr) é muito mais que uma loja de roupas. Ela estimula a sustentabilidade por meio da moda e do conteúdo consciente. Confere o texto que a Aline Fischmann, uma das sócias da marca,

A Mudha (@mudhabr) é muito mais que uma loja de roupas. Ela estimula a sustentabilidade por meio da moda e do conteúdo consciente. Confere o texto que a Aline Fischmann, uma das sócias da marca, escreveu para o site.


A convite da SOW, nós da Mudha fomos convidadas a escrever esse texto. E que prazer enorme em estar aqui! Mais do que vender roupas, sempre defendemos que o conteúdo e a informação são as maiores e mais potentes catalisadores de mudanças de comportamento, por isso não medimos esforços para estudar e aprender sobre novas práticas dentro dessa indústria, e compartilhá-las com o público – seja aplicando em nossas coleções, ou escrevendo conteúdo sobre – é a nossa maior satisfação.


Então, para contribuir com esse projeto da melhor forma, buscamos um tema inspirador. Dentro de todos os problemas e impactos negativos da indústria da moda, é um respiro de ar puro ver soluções como essa, que nos permitem enxergar o futuro com mais esperança e otimismo.


Você já ouviu falar em Agrofloresta Têxtil?

Se não, não precisa se sentir mal. O conceito é realmente muito novo e ainda pouco explorado. Por isso vamos começar do começo.


Talvez você nunca tenha parado para pensar, mas grande parte dos tecidos utilizados na indústria da moda são de origem vegetal, portanto produtos do agronegócio, sendo o mais conhecido e amplamente utilizado, o algodão. Esse é um dos motivos que faz com que a moda tenha um impacto tão grande no meio ambiente, mesmo antes do início da produção e descarte da peça.

A fast fashion potencializou o uso e o cultivo desses cultivares e, nos últimos anos, cientes da dimensão dos impactos da indústria e pela pressão dos próprios cliente, algumas varejistas de moda têm apresentado coleções em materiais “mais sustentáveis”, com peças feitas de algodão BCI (Better Cotton Initiative) ou de PET reciclado, por exemplo.


Mas será que isso é o suficiente para solucionar os impactos negativos causados pela indústria da moda? Antes responder esta questão, vamos entender a raiz do problema.


Impactos sociais e ambientais da Indústria da Moda

A indústria têxtil é considerada ecologicamente uma das indústrias mais poluidoras do mundo. As questões que tornam os ciclos de vida de têxteis e vestuário insustentáveis, vão desde a extração de matérias primas naturais provenientes de modelos de cultivo agrícola insustentáveis, o uso de substâncias químicas nocivas ao planeta e às pessoas nas lavouras e posteriormente no beneficiamento e tingimento do tecido, o alto consumo de água e energia nos processos, geração de grandes quantidades de resíduos sólidos e gasosos, enorme consumo de combustível para transporte para locais remotos onde as unidades têxteis estão localizadas, além do uso de materiais de embalagem não biodegradáveis.


O impacto global sobre o meio ambiente por um produto ou processo têxtil pode ser melhor compreendido pela avaliação do ciclo de vida (ACV). Na moda, este ciclo se inicia na extração da matéria prima, e por isso, a seguir analisaremos os diferentes tipos de fibras têxteis existentes atualmente.


Classificação das Fibras Têxteis

Existem diversas formas para classificação de fibras têxteis. Para análise, iremos utilizar a classificação de Fletcher, que as categoriza em dois grandes grupos em relação a sua origem: fibras naturais e fibras manufaturadas e suas ramificações.

 Classificação das fibras têxteis, segundo Fletcher.


Existe um grande leque de materiais considerados sustentáveis, e cada um sai na frente em determinado aspecto. Além da origem da matéria-prima e sua capacidade de regeneração, o descarte no pós consumo é outra forma de classificação das fibras têxteis. As fibras biodegradáveis, por exemplo, são consideradas sustentáveis uma vez que desde a etapa de design a roupa é pensada para que no fim do seu ciclo de vida, possa ser biodegradadas sem danos ao meio ambiente.


No processo de biodegradação, as fibras das peças de roupa são decompostas em substâncias mais simples por microorganismos, luz, ar e água em processo que deve ser atóxico e ocorrer em período relativamente curto de tempo. Nesse sentido, as fibras derivadas de plantas e animais
são mais facilmente decompostas, já as fibras sintéticas derivadas do carbono não são consideradas biodegradáveis porque os microorganismos responsáveis pela decomposição não possuem as enzimas necessárias para decompô-las.


No caso de roupas com fibras mistas – naturais e sintéticas mescladas – também não é possível ocorrer o processo de decomposição. É importante ressaltar que para que uma peça de roupa seja considerada biodegradável e para que o processo ocorra da melhor forma e no menor período, os outros materiais que compõem a peça, como aviamentos e etiqueta devem ser ou evitados ou feitos de materiais igualmente biodegradáveis.


De modo geral, matérias primas naturais ficam à frente das sintéticas, independentemente do processo de fabricação e beneficiamento, e é por esse motivo que pesquisas e tecnologias vêm sendo desenvolvidas em busca da sustentabilidade na produção têxtil focadas nesses materiais.


Slow Fashion e a dimensão temporal

Não é possível falar em sustentabilidade na moda sem uma reflexão profunda a respeito de tempo e velocidade. Por mais que a tecnologia nos possibilite processos mais rápidos e a otimização na manufatura de produtos, é essencial que a relação entre a velocidade de produção e consumo seja repensada para que se possa alcançar algum nível de sustentabilidade na moda. “Questionar a velocidade significa questionar a economia (FLETCHER, 2015, p. 124).


Em primeira análise, a velocidade de produção nos remete a produção do produto – corte e fechamento da peça – propriamente ditos, porém, a pressão por rentabilidade em um curto espaço de tempo pode ser identificada muito antes disso: no campo, no plantio da fibra. Como
apontado, as fibras de origem natural dão origem à maior parte dos tecidos utilizados atualmente pela indústria da moda, principalmente o algodão, por isso é necessário analisar o processo desde o início da sua cadeia de produção para entender em quais esferas se é possível atuar, bem como quem será impactado.


Uso da Agroecologia no cultivo das fibras têxteis


Por definição, a agricultura ecológica, agricultura sustentável ou agroecologia é um processo de manejo de solo e colheita diferenciados, tendo um viés ecológico que o distingue da agricultura extrativa tradicional. Por essa perspectiva, que adota uma visão holística da natureza, ela também leva em consideração conceitos econômicos, sustentáveis e éticos da prática (ALTIERI, 1989).


Em relação à pegada ecológica e sustentável, o método promove a regeneração e a manutenção não apenas das culturas, mas de todo o sistema de produção alimentar, inclusive de comunidades rurais arredores e dos consumidores finais, englobando todos os aspectos que permeiam a sustentabilidade na agricultura.


De forma prática e resumida, esse formato de cultivo valoriza os microrganismos presentes no solo, considerando que todo e cada um dele é essencial para a manutenção da terra e seu potencial fértil. Outra prática adotada pelo método é a utilização de biofertilizantes – em contraponto à fertilizantes industriais – feitos com materiais naturais que tornam o solo mais fértil e beneficiam as culturas de microorganismos.


Agroflorestas têxteis como solução aos impactos negativos da indústria da moda

A agricultura é fonte de grande parte dos insumos para matérias-primas têxteis, portanto, o impacto socioambiental da indústria da moda está diretamente relacionado à produção agrícola. Pensando nessa relação insustentável, a startup FarFarm foi criada por Beto Bina, Felipe Villela, Pedro Saldanha e Werner Kinas com o objetivo de pesquisar e praticar técnicas de agrofloresta e desenvolver fibras e tecidos a partir desse sistema. A moda foi escolhida como principal segmento de atuação da startup em função de todos os impactos socioambientais levantados, e pela oportunidade de transformação do mercado a partir da sustentabilidade.

Na prática, a empresa desenvolve tecidos responsáveis usando o sistema de agrofloresta têxtil, que regenera a natureza e comunidades do Brasil. Em paralelo, é realizado um projeto educacional que estimula famílias agrícolas a plantarem fibras naturais que têm como destino a indústria têxtil, como algodão, jura e rami, baseando-se nos princípios da agrofloresta. Beto Bina aponta que “outro objetivo de visão futurista da empresa é ensinar, às comunidades ribeirinhas e cooperativas da região Amazônica, como desenvolver a Agrofloresta, para que possam tirar alimento para consumo e ajudarem a desenvolver fibras têxteis que possam gerar uma renda extra para suas propriedades”.


A agrofloresta têxtil é uma solução altamente eficaz para regeneração de ecossistemas e engloba todos as esferas da sustentabilidade, porém é incompatível com a sociedade de consumo de moda como é compreendida atualmente. Ainda são necessárias mudanças comportamentais profundas e mudanças estruturais importantes nos modelos de negócio de moda atuais para que possa haver convergência entre as partes. Enquanto o modelo fast fashion imperar e a cultura do descarte de peças de vestuário for amplamente aceita e estimulada, soluções como o plantio de fibras têxteis em formato de agrofloresta ficarão reduzidas a pequenas escalas.


Novas abordagem para a agricultura de fibras têxteis com viés ecológico e sustentável são tecnologias inovadoras e apresentam soluções com resultados reais aos danos socioambientais causados pela agricultura, e iniciativas como a FarFarm são primordiais para o desenvolvimento e disseminação da prática, porém, essa abordagem só terá efeitos em grande escala se acompanhadas por mudanças e hábitos de consumo. As mudanças nas esferas social, científica e tecnológica devem andar juntas para garantir o futuro sustentável na indústria da moda.


Este texto foi extraído do artigo “Os desafios para abordagens agroecológicas no cultivo de fibras têxteis em tempos de fast fashion”, escrito por Aline Fischmann e Neide Schulte.

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